Pausa com LacanBuscando respostas

Outro dia, buscando respostas, tomei coragem e decidi ligar para o Lacan. Por sorte do destino ou pela sensibilidade que lhe é peculiar, disse prontamente me atenderia no final do dia. Consegui dizer um obrigado que saiu meio engasgado, talvez por estar estupefato pela oportunidade que eu teria.

Tal façanha já me dava sinais que eu estava na hora certa no momento certo e que o final do dia seria revelador.

Totalmente tomado pela ansiedade e por milhões de coisas que eu queria dizer a ele, cheguei uma hora mais cedo em seu consultório. Ainda um pouco cego pelas pupilas dilatadas da claridade daquela tarde Parisiense, entrei na sala de espera e assentei no primeiro banco, olhando para o chão, vendo várias pessoas ali aguardando mas não enxergando ninguém. Um sentimento de medo tomava conta da minha de todos meus instintos.

Enquanto eu respirava profundamente sem querer fazer barulho para não chamar atenção, aos poucos fui analisando cada um dos que estavam também ali. Uns demonstravam certo desconforto, um tipo de aflição que era percebido em olhos vidrados e marcantes. Outros, pareciam totalmente calmos, a vontade, conversando entre si, sorrindo.

Rodeado por várias pessoas, eu vivia ali momentos dúbios mas a calma foi tomando lugar ao nervosismo, até porque eu precisava organizar meus pensamentos para quando fosse chamado, pudesse então relatar ao mestre todos meus questionamentos.

E depois de horas passadas, meu nome é pronunciado. Em passos trêmulos mas decidido, entro por aquela porta que esteve a todo momento entreaberta

Com um sorriso sereno, daqueles que demonstrava uma ironia boa e com um olhar penetrante, levantou-se de sua cadeira e veio até minha direção. Confesso que a única coisa que pude observar foi seu casaco preto extremamente alinhado e com botões reluzentes. Ele era mais alto que eu.

Imediatamente eu colocou suas mãos em meu ombro me levando calmamente a uma uma poltrona, acendendo um charuto logo em seguida e dizendo:

– Vivemos um tempo de incertezas.. e imediatamente arrumando os cabelos com a mão direita corrigiu dizendo – a vida é uma constante incerteza… e continuou – portanto o que você tem medo? – Perguntou ele com um olhar penetrante no meu mais profundo pensamento.

– Tenho medo da esperança – medo de que as pessoas não acreditem que eu acredito nas pessoas – respondi logo acrescentando – medo de que as pessoas se tornem descrentes ou duras.

Neste momento ele me deu as costas e caminhou até sua poltrona. Cruzou as pernas e após um longa exalação de seu charuto e olhando para aquela luz marcante que vinha da janela lateral e que marcava seu rosto, respondeu:

– Então você me diz que tem medo da incerteza – medo que que suas idéias ou crenças não façam sentido para alguns mesmo que você acredite plenamente nos seus mais absurdos pensamentos ou certezas que só você tem e que só você por enquanto acredita.

Por um momento fiquei pensativo. Afinal, como ele poderia ter entrado de forma tão rápida e resumido de uma forma tão simples todo aquele turbilhão de indagações e questionamentos que me levara a estar ali?

E antes mesmo de querer tentar encontrar uma resposta para a sua afirmação que era uma verdade incontestável, ele rapidamente levantou-se de sua cômoda poltrona, apagou seu charuto e me levantou, segurando meus ombros, com as mãos firmes e quase que me sacudindo e com um tom mais eloquente, ele me disse:

– Meu jovem, entenda uma coisa! – a vida é esse buscar constante – e se não acreditarmos nas pessoas, no próximo, o que restará dela?

Soltando calmamente meus braços e com aquele sorriso inicial meio cínico, ele completou:

– e para vivermos nesta vida que nos é apresentada por tantas vezes de forma louca, precisamos questionar na maioria das vezes o senso comum e uma dose de loucura nunca fez mal a ninguém! – portando, continue sonhando e acreditando em seus devaneios, mesmo que isso possa ir contra a tudo e todos.

Neste momento senti um vazio. Um vazio que explicava tudo, que respondia todos meus anseios mas que ao mesmo tempo provocava uma necessidade de ter mais explicação, de obter respostas que na verdade já haviam sido respondidas. Na hora me deparei então com a inimaginável sabedoria daquele ser.

Vi que tudo já havia sido dito, que minha hora havia acabado. Levantei e dei dois passos em direção a sua mesa. Totalmente leve, e com um turbilhão de respostas em minha alma, estendi minha mão e ele me abraçou.

Perguntei quanto eu devia por seus serviços e no contínuo abraço ele me disse:

– Não há o que pagar! Vá! Lute e siga seu caminho. Não tem nada de errado com você, afinal somos todos enfermos.

 

T. Isaac 19.09.16